Arquivo de janeiro, 2006

MAS QUE SAUDADE QUE TENHO

domingo, janeiro 22nd, 2006

 MAS QUE SAUDADE QUE TENHO!

 

 

“…Eu devia ter escrito, eu devia ter pensado, eu devia não dizer nada…”  Foram essas as palavras usadas inicialmente por Costa Matos, em 1969, no discurso de inauguração da Praça Sebastião  Matos, seu genitor, em frente ao Colégio Estadual Otacílio Mota.

 

Era noite, e ainda me lembro como se fosse hoje. A praça estava completamente tomada pelo público, para ouvir o discurso de um dos mais ilustres conterrâneos. Culto, inteligente e admirado por todos, Costa Matos, é, sem dúvida, sinônimo de cultura. Ele chegou atrasado à solenidade, até hoje não se sabe o porquê; ele nunca faria isso propositalmente; criava-se, então, uma expectativa nos que o esperavam. Ansioso, o povo se acotovelava cuidando para ficar mais perto do orador, por se tratar de uma oportunidade rara. Suas palavras soavam num ritmo cadenciado e afetivo, como se tivesse vivendo o melhor dia de sua vida. Atentas, as pessoas cochichavam, elogiando-o e ao mesmo tempo afinavam o ouvido num comportamento primoroso de atenção e respeito. O silêncio era tangível; ele sabia que ali se encontravam quase todos os estudantes do Colégio de que já fora diretor, bem como admiradores de todas as idades, e também os principais políticos da cidade. Professor Antônio Simões ficou bem distante, isolado, com ar de ansiedade, como um fã apaixonado que quer ver seu ídolo em ação. Quando alguém falava mais alto, ouvia-se, dos presentes, aquele psiu característico, pedindo  silêncio. Que delícia! Era como se estivéssemos lendo a Machado, um prazer que massageia o ego. O evento inaugural durou pouco mais de uma hora. Foi um deleite para os que amam o idioma de Camões, e um inesquecível prazer para os ciceronianos. Os comentários sobre a invejável oratória, se sucediam aqui, ali e acolá. – O Professor é mesmo nosso representante número um, na cultura ipueirense, completavam!  A Praça foi realmente inaugurada. Naquela mesma noite os alunos do Colégio fizeram festa de agradecimento, por terem adquirido mais um ponto de encontro e lazer por que já reclamavam há muito tempo.

 

Fecho os olhos e vejo Zacarias, Telogo, meus mestres de ginásio: Antônio Simões, Padre Belarmino, Dr. Célio Marrocos Aragão, Rosinha Belém, Costa Matos, Prof. Dario, Prof. Gilson(Juíz), D. Helena Falcão, Maria Simões, D. Ruth Catunda…  "Mas que saudade que tenho! Esses anos não voltam mais." Registrar esses incidentes, significa guardar no coração a saudade e os momentos felizes da infância. Tadeu do Zeca Bento, Chico do Mariano, Vei Zé Lira, Cazuzinha, Pedro Silita, Furi, Pantico, Gerardo e Domingos Morais; com esses personagens vivi boa parte de minha juventude. Obrigado, não só por ser meu berço original, mas também pelo seu povo hospitaleiro. Sinto-me feliz falar de minha cidade. Honro-me muito por ser conterrâneo de Gerardo Mello Mourão, de Boré e de Zeca Bento.  Quero estar outra vez no meio dessa gente, mesmo noutra encarnação.

 

 

Boquiaberto, não consigo mais contar quantos escritores surgiram nos últimos 50 anos. Mas alguns vi, ainda criança, pés descalços, montados num talo de carnaúba (Como bem dissera Jeremias Catunda numa de suas magistrais crônicas), peralteando pelas ruas, fazendo uma racha nos bancos-de-areia do rio Jatobá, ou subindo nos muros dos vizinhos para catar manga… Hoje são homens feitos. Carlos Drumonnd, Machado e outros expoentes da literatura, começaram sua carreira literária conversando com os livros, como  fazem hoje os meninos escritores de minha terra! Chamo-os de meninos porque é uma forma carinhosa de tratá-los. Sou também ainda uma criança na linguagem espiritual! E meu lado infantil permanece quase inalterado porque a caminhada é longa, e o crescimento do ser humano é quase imperceptível.

 

As crônicas de Jeremias e as obras de Costa Matos, inspiraram-me soletrar as primeiras sílabas do abecedário. Quando eu era menino, agia como menino, e vivia como menino. Eu estudava na Escola Normal Rural de Ipueiras, que era dirigida pelo eminente professor Costa Matos.  Eu sentia uma vontade louca de ser uma criança como as com quem vivia diariamente, que tinham pelo menos o essencial para viver.Eu queria ler tão bem, como fazia o Professor Dario. Eu ficava olhando de longe sua biblioteca. Ele estava sempre deitado numa rede branca de varanda, lendo… Dona Otília Sabóia, num canto da sala, fazia o acabamento de suas redes. Eu achava muito bonito quem lia; parava na calçada para ver os livros do professor, aquelas coleções de capa dourada. Ficava muito curioso para saber sobre aqueles livros  volumosos, do cartório. Eu acreditava que quem já os tivesse lido, deveria saber muito! Passados alguns anos descobri que nesses livros estavam os assentos de nascimento da população onde constava o meu também. Hoje, quando me lembro, rio! Como eu era criança!

 

A vontade de escrever  nunca saiu de minha mente; Peço a Deus que esses jovens descubram logo o amor pelas letras. Ao meu ver, Cultura é sinônimo de Leitura! Leiam, mas leiam muito mesmo! Os monstros sagrados da cultura universal estão aí para provar que a leitura é de fundamental importância para o conhecimento humano. É um vício gostoso que todos deveriam ter. É preciso fazer-se alguma coisa para estimular a leitura em todos os níveis dessa gente pequenina. Ler faz muito bem à saúde cultural.

 

 

 

Admiro um texto limpo e desengordurado, mas os meus, coitados, são obesos e mal cuidados! Gostaria tanto de escrever corretamente! Como fazê-lo, não sei!  . Mas prometo, a mim mesmo, que um dia lá chegarei! Ipueiras é assim: seus filhos sempre voltam para enaltecê-la. Os meninos de ontem, hoje são doutores, escritores, prefeitos e vereadores. Neles devemos confiar porque tudo que a gente quer, pode. Portanto, se eles querem, podem.

 

Cortaram as carnaúbas de frente á farmácia de Dr. Idálio, e as de frente ao Guarani, até bem pouco tempo, lá estavam. Mas me lembro de duas que pareciam um casal de namorados apaixonados, que ficavam de frente ao Zé Lima. Que maldade! Por que cortaram a todas? Elas contavam a história da vila que cresceu, emancipou-se e tornou-se cidade. Dizem que foi o progresso que as cortou!

 

Jeremias escreveu naquela época uma belíssima crônica sobre o corte desses monumentos vivos. Essa crônica foi lida na Rádio Vale do Jatobá, numa noite em que todos os ocupantes da praça Padre Angelim, inclusive os casais de namorados, pararam para ouvi-la. Lances como esses, recordando minha infância que não volta mais, não vou esquecer. Não quero que cortem mais nada de minha cidade, nem interrompam a caminhada da juventude, que com zelo e perseverança, serão os homens de amanhã. A esperança de dias melhores está consubstanciada na cultura e no futuro dessa garotada, que ontem eram meninos peraltas, endoidando os que esmolavam pelas ruas, como faziam os filhos de Luiz Aragão.

 

O site da cidade está cheio de crônicas e poesias de gente da terra. Alguns já são escritores ou jornalistas de nomeada, como Costa Matos, Gerardo Mello Mourão, Frota Neto, etc. Formam outra lista, escritores novos, cujos trabalhos literários, já são destaques no cenário cultural do país. Vale a pena recordar nossa história, acompanhar o crescimento da cidade e compartilhar com os que se projetam no mundo da cultura. Em nível de Ipueiras, observa-se grande progresso nas letras. É forte, muito forte sua escola de escritores, ela sempre existiu e haverá de continuar sempre em voga. (Luiz ALPIANO Viana). 

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