Arquivo de abril, 2006

A FAMILIA

sábado, abril 8th, 2006

A FAMILIA
 
Como fomos criados, algumas pessoas estranham; levantava pela manhã e ia direto ao pai e à mãe para tomar a bênção, o filho. Havia algumas famílias que adotavam o critério de  se ajoelhar,  segurar a mão e beijá-la  após ouvir a expressão: "Deus te abençoe". Eu fui criado assim e veja que também éramos instruídos a tomar a bênção a quaisquer pessoas idosas que encontrássemos pelo caminho. Eu me lembro que já tinha dezesseis anos de idade e ainda continuava com a mesma mania de pedir a bênção aos mais idosos com quem me deparasse.
 
Não podíamos esquecer da bênção, se não éramos repreendidos, e há casos em que algumas famílias surravam os filhos por esse ato de esquecimento. Á noite, minha mãe sentava-se num banco e nos colocava de pé em sua volta, em forma de círculo. Era a hora dos ensinamentos cristãos. Naquele instante ela ensinava-nos as rezas da igreja católica, como: Pai Nosso, Credo, Salve Rainha e outras. Não se cansava de repetir sempre as mesmas orações e quando errávamos, fazia-nos recomeçar.
 
O Pelo Sinal, da Santa Cruz… era o início e o fim daquelas aulas de evangelização. Se fôssemos dormir sem tomar-lhes a bênção, faziam-nos acordar, e íamos até seu quarto,  pois não podia ser feito à distância. Outras vezes falava de lá  perguntando se já  tínhamos rezado antes de dormir, pois se não tivéssemos feito teríamos que fazê-lo agora.
 
Velhos tempos, bons tempos. Os filhos de hoje não conhecem esse tipo de educação religiosa. Alguns, cujos pais frequentam igrejas ou outros templos religiosos, não os acompanham nos dias das reuniões. Se são convidados por alguém a participar de  evento em que se professa a palavra de Deus, desculpam-se apontando compromissos previamente estabelecidos. Todos, lá de casa, tinham de ir à missa aos sábados ou aos domingos, e colocavam-se as mellhores roupas e sapatos. Era uma família coesa, de filhos e pais dedicados à Divindade. Rumavam para igreja, onde cada um tomava seu lugar. Havia lugar só para os homens, como, lugar só para as mulheres. Ninguém se misturava. A obediência a Deus era tão grande, que quando o acólito tocava aquela campainha, no momento da elevação das oferendas ao Santíssimo, ficávamos de joelhos, derreados para frente, bendizendo o nome do Senhor. E seguindo àquela ritualística, respondíamos ao que o sacerdote falava. Um coro de beatas, ao som de músicas para aquela cerimônia, ecoava doce, solene e harmoniosamente, por toda a nave. Era desrespeitoso, naquela hora da elevação ao Santíssimo, provocar qualquer barulho ou ruído. O silêncio tomava conta de tudo. Não se devia nem tossir. Concentrados e voltados para Deus, cada um se mantinha imóvel até se ouvir outra vez o tilintar daqueles sininhos conduzidos pelo coroinha. Na homilia o padre tecia assuntos da vida conjugal, familiar e também de política.
 
A volta para casa tinha sabor de felicidade, respiravam-se ventos de calmaria. No patamar da igreja, viam-se pessoas se cumprimentando. Eram aqueles amigos ou parentes que não se encontravam há muito tempo. Aos poucos, se desfaziam aqueles grupinhos, enquanto uns retomavam o caminho de casa, outros passeavam nas calçadas e avenidas; os casais de namorados sentavam-se nos bancos das  praças, à sombra dos figos,  alimentando a esperança de um reencontro no próximo fim de semana. Tudo aquilo era muito simples. Havia seriedade em tudo que se fazia. O amor brotava no coração de cada um, como uma chama divina que reabastece de novas energias a vida humana.
 
Alguns filhos de hoje chamam os pais pelo próprio nome de bastimo: Pedro, João, Maria, etc; quem não os conhece não sabe se se trata de pais e filhos. É muito estranho esse tipo de tratamento que dão aos pais. Filhos há, que por um determinado tempo, ao chegarem à maioridade, vão morar sozinhos, ou com amigos, ou com colegas,  ou até mesmo com a própria namorada. Os namorados dormem juntos na casa dos próprios pais e nínguém acha isso errado. Há também pais que preferem que as filhas tragam seus namorados para casa e com eles ali dormirem, por acharem que assim têm o controle, sabem onde estão e até mesmo o que fazem. O motivo disso é o uso desenfreado das drogas que desmontam a sociedade, invalidando a trajetória do jovem adolescente. Na minha infância e adolescência não se ouvia falar em droga, pelo menos onde eu morava; era uma preocupação a menos para os pais.
 
Foi na segunda matade do século XX e início do XXI, que se proliferou o uso dos entorpecentes pelos jovens do mundo inteiro, principalmente nos países mais desenvolvidos. No Brasil não poderia ser diferente. O mundo globalizado, através da tecnologia e da informática, trouxe de tudo, desde os facilitadores para uma vida moderna e confortável, a males incuráveis que nem mesmo a ciência dos dias atuais resolve. 
 
Nós que fomos criados naquele sistema de obediência e respeito aos pais, obrigados a ter a mesma religião como sustentação espiritual e salvadora, assistimos aos acontecimentos do atual século,  pasmos. Até parece que tudo está errado. Mas dá para se perceber que nossos jovens e adultos identificam-se. As escolas responsáveis pela educação moral e intelectual, ensinam que as coisas mudaram para melhor, contudo não se ver qualidade que justifique essa afirmação. Observamos mudança no conceito de religiosidade com o surgimento de igrejas com fins estritamente comerciais; a família estruturada que sempre foi a base da sociedade, perdeu sua essência existencial; pouco importa para os casais a continuação do casamento, e infelizmente a esse modelo seguem nossos filhos; devemos colocar na sociedade  homens respeitosos, amáveis, obedientes, e tementes a Deus. Da família com raízes profundas no sentimento mais nobre, que é o Amor, sairá o cidadão. O berço estruturado no bem e no amor ao Pai, deve ser a fôrma, o trilho e o modelo de onde deveriam sair os verdadeiros cristãos. Sem a família, como serão os homens? Quais serão seus gestos? Como respeitará o próximo? Como será o homem que não tem Deus no coração, que não teve familia, que não teve pai, que não teve mãe, que não teve irmão, que não conhece a Deus? Está na família a substância da cidadania e da vida. Isso é notório até mesmo no mundo dos animais mais irracionais que se pôde conhecer até agora. (Luiz Viana)
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