Arquivo de junho, 2008

ISSO É SAUDADE

quinta-feira, junho 19th, 2008

ISSO É SAUDADE

 

– Não passa avião aqui! Esse paraíso é meu!

 

– Como não, vejo-os até de madrugada?

Voam baixo, são grandes e barulhentos.

Vi-os numa noite enluarada, da varanda, de sua rede, deitado!

Eu morro de medo do ronco que eles fazem…

 

– Você está completamente enganado!

Aqui avião não passa, mas há estrelas sobre minha fortaleza!

Iluminam e me velam à noite inteira que até me acordo saudável!

Tenho muito amor por elas.

E gosto do firmamento estrelado.

 

Olhar o céu, à noite no sertão, é um convite pra compor uma canção!

Os pássaros daqui cantam, aninham-se e festejam minha paz!

Eu não vou sair daqui, prefiro morrer a me mudar de lugar!

 

– Tudo aqui está contra mim:

Até os gira-sóis nem me olham mais,

deram-me as costas. Que maldade!

 

O ar que sopra forte do cerrado,

que tem seu perfume, seu cheiro,

mudou-se para a outra quadra.

 

Aquela rosa, que antes eu regava,

reclama-me que sou desatento e descuidado;

a música que me afundava no sofá, essa sim, ainda está do meu lado:

Recorda-me muito da época da Jovem Guarda.

 

Um beija-flor trissa bem perto de mim.

Ele me reconheceu, lembrou-se, coitadinho!

É lilás e se alimenta apressado.

Parece muito faminto.

Suga todo o néctar das rosas,

não deixa nada pra mim.

 

Das mudas que semeou, a minha não germinou.

Será que morreu, ou enganado estou?

Plante-a num jarro pequenino, num canto de sua casa.

Adorne-o com sua imaginação, mas só vale se for de coração!

 A roseira é admirada e bela, como você, quando fica na janela.

 

Lembro-me de seus dois cães que nos quais não confiava.

Mas você por segurança no portão me esperava,

recebia-me  tão bem que os seus olhos brilhavam.

Oferecia os lábios com sorriso de criança

e tinha no paladar sabores de minha infância.

Era um momento de encanto

que ao cair sobre mim, dava-me sono e descanso.

 

Conte-me das hortaliças, das leiras de batata doce,

das pitangas do pomar que tinham a cor de seu rosto.

Diga-me que passarinho atormenta seu sossego,

voando em busca de ninho querendo seu endereço!

 

Saudade derrama lágrima que choro em demasia,

mas para não me entristecer

Canto logo uma cantiga.

 

O amor é lindo, mas às vezes é cruel!

A lembrança, não se acaba,

do gramado enfeitado com pedaços de papel.

 

 

 

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