Arquivo de abril, 2010

O MACACO E A PORCA

segunda-feira, abril 5th, 2010

26.3.10

O MACACO E A PORCA

Por

Luiz Alpiano Viana
Minha infância, até os 11 anos de idade, foi vivida inteiramente na roça. Tive a oportunidade de participar de alguns incidentes e a outros assistir sem perder o sagrado direito de ser moleque. Também tive meus dias de menino insuportável quando a questão principal era o direito de brincar.
 
Naquele arraial, o dia para a criança viver suas peraltices começava exatamente quando ela acordava. Em sua volta tinha a natureza e dela retirava os brinquedos de que mais gostava, frutos de sua própria criatividade. Não eram iguais aos das crianças das cidades grandes, industrializados pela Estrela ou outras empresas do ramo, porém atendia à sua necessidade.
 
A convivência com pássaros e animais se tornava uma rotina. Aí começava a vida de um roceiro em cujo meio, criava porcos, galinha, jumentos macacos, etc. Todo esse contingente de animais domésticos e alguns selvagens fazem parte do universo criado pelo próprio homem. O campo onde mora lhe faz mais bem do que a cidade. Ele se identifica muito mais rápido com o cheiro da terra, e, do mato verde.
 
No terreiro da casa os animais se misturavam. O macaco Chico está lá também. Foi um presente de um amigo de meu avô que o trouxera da serra dos cocos, Matriz de São Gonçalo. Travesso e inconveniente, ele era de fato um sério problema na casa. Quebrava xícaras, pratos, derramava potes de leite e ainda dava sumiço em muitos objetos de uso diário, como talhares e copos. Incrivelmente, todos os dias ele estava na pauta dos principais assuntos da família. Pensou-se até no pior: dar-lhe um fim, matando-o ou doando-o a quem o interessasse. Mas isso era uma medida extrema e minha avó era contra. Dizia então que quem não é macaco não pode se acostumar com macaco, mas ele pode ser aceito por outros macacos. Nós temos outro comportamento e por isso não nos entendemos. Nossa linhagem é mais avançada, mais desenvolvida.
 
O macaco era o rei da bicharada. No meio de outros animais, existia uma franga pedrês que a chamávamos de a franga do macaco. Ele a tomava de surto, enrolava o rabo no pescoço da coitadinha, e a levava para o alto das árvores. Não estava nem aí, a frangota! Ela demonstrava que gostava mesmo daquele chafurdo, sequer dava um pio. Com seu malabarismo, o Chico atormentava a todos, mas havia momentos que nos provocava risos. Em algumas ocasiões gostávamos do que fazia até porque entendíamos que não passava de um simples macaco. Suas macacadas chegaram ao conhecimento de muitas pessoas porque ele corria boa parte da região montado numa porca. A porca deveria pesar uns cinqüenta quilos. Era grande e parideira de grandes ninhadas.
 
As pessoas sempre davam notícia de um macaco montado numa porca preta, transitando em vários logradouros públicos. Seu estilo de montaria não se assemelhava ao do homem, pois ficava com a frente para trás, segurando-se no rabo de seu cavalo de estimação. Quem via, ria! Não tinha porque não rir! Era um espetáculo inusitado e a porca o obedecia cegamente.
 
Às quatro horas da manhã ele não faltava à porta de Manoel Rufino, dono de uma vendinha de café na calçada da estação ferroviária. Seu Manoel fazia o café no fogão à lenha e acima da fornalha tinha um buraco na parede por onde seu amigo símio, pelo lado de fora, lhe pedia um pedaço de rapadura. Se o Chico demorasse, seu Manoel não esperava, contudo deixava o presente na boca do buraco. Logo que pegava o lanche, voltava imediatamente, tomava o táxi e continuava o passeio de sempre.
 
Devido ás travessuras que aprontava não se entendia bem com minha mãe. Um dia ela lhe deu uma surra de cipó de marmeleiro porque soltou do alto do juazeiro as xícaras de tomar café. Por causa disso, quando ele vinha de suas andanças, a alguns metros de distância da casa onde morávamos, apeava-se e corria por dentro do mato num atalho. E lá adiante esperava o cavalo chegar e o montava de novo.
 
Quem não tolerar macaquice não crie macaco! Eles às vezes nos fazem sorrir, mas também nos fazem chorar de tédio. Embora a ciência nos diga que a diferença entre o homem e o macaco é de quatro por cento, mas só em não falar, ainda estamos muito longe um do outro. Há quem diga, pois, que essa difereça já baixou para dois por centro. Certo é que se ele falasse nos xingaria com palavras de baixo calão! A amigo não se dá presente de macaco!

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Foto: site avozdaespecie.wordpesss. com /
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Luiz Alpiano Viana, é um ipueirense apaixonado por sua terra natal. As suas memórias e saudades de Ipueiras estão sempre presentes em suas crônicas, a exemplo de “Saudade” e “O astuto cirurgião”, narrativas que trazem de volta velhas e boas recordações. Tendo morado na cidade de Crateús/CE e em Brasília/DF, atualmente reside em Forteleza/CE e é funcionário aposentado do Banco do Brasil.
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