Arquivo de julho, 2012

REFÚGIO DE UM PALHAÇO

segunda-feira, julho 9th, 2012

Se se prende à saudade o sofrimento sendo incontrolável é um castigo, uma tortura; murmura o vento que soa suave e delicadamente que faz lembrar o sentimento de um maestro compondo uma canção. Escuto parte dela de meus aposentos e não decoro sequer uma frase, nem mesmo o refrão.

Ensaio uma cantiga só para sentir saudade. Cedinho, quando me levanto, olho em volta e pressinto um caminhar, em passos lentos, de alguém que está à minha procura; dá-me arrepio na coluna. O corpo inteiro se ressente e tremo. Desenho na mente uns lábios femininos, uns olhos de princesa, umas mãos de fada que afaga; um abraço que não aperta, mas comporta um beijo em plena praça.

Quem está aí – pergunto e ninguém me responde. Repito a pergunta como menino teimoso que tira o juízo dos pais. O silêncio toma conta de tudo. Uma vez mais me questiono quem estará à minha procura nos cantos de minha ilusão? Se o bem é para combater o mal por que me pôr à prova?

Grandes miragens se desenham nas paredes de minha sensibilidade e o horizonte mais alaranjado que já vi, engole como um dragão o sol que iluminou o mundo o dia inteiro… Acendem-se as luzes. Vejo um oceano de opção por cujas ondas deverei, dentro em breve, navegar. O canto que não cantei soa mal; a gloriosa noite sem sono ensina-me que amanhã é outro dia!

Momentos de afeição existem que mudam pensamentos, refazem-se projetos e constroem-se muralhas. Tudo passa. O amor que não deu certo nunca existiu. Apresso-me para ver a lua à espera do sol que não se atrasam, mas também não se encontram. E chegam cedo, tão cedo que para encontrá-los caminho porta afora ainda dormindo o sono da madrugada. Não orei ao Pai, nem ao Filho, nem mesmo ao Espírito Santo, mas quando eu despertar e ouvir o rufar dos tambores, é a glória dos vencedores que se aproxima, diz o Santo!

Fui à casa de oração e não há nada contra mim. Não, não há, disseram-me com sorriso de gentileza. Aliviei-me em parte e voltei a escrever os versos que estavam guardados na gaveta da memória. Estrofe pequena, com poucas palavras, mas mesmo assim dizem o que quero. Deitei a cabeça e descansei todos os cansaços. Sonhei tudo que gostaria de ter sonhado em toda minha vida…

O sentimento do palhaço no picadeiro é o de alegria contagiante. O que se delicia sob a lona em trapos tem visão e sentimentos aguçados. Quando a apresentação terminar ele voltará para si com todo o encanto que tem e diz: o picadeiro é mesmo o refúgio do palhaço! Ele é o único responsável pela graça sem graça, do riso com riso e da tolerância intolerável. Finalmente, come o bolo que amassa e se tostou, foi dele a falta de cuidado. Quantos picadeiros haverá de construir ao longo da caminhada? Na verdade não é preciso pintar o rosto para ser palhaço.


 [A1]

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