Arquivo de junho, 2017

SAUDADE DE IPUEIRAS

domingo, junho 18th, 2017

SAUDADE por Luiz Alpiano Viana (12.04.2007)
12.4.07
SAUDADE

POR
LUIZ ALPIANO VIANA

Dizem que saudade é tudo aquilo que ficou daquilo que não restou. Mas eu acho que saudade é o registro do passado, lembrança dos tempos que não voltam mais, dos primeiros passos de vida, dos erros e dos acertos que ficaram no passado.

Em Ipueiras, vivi todas as fases de minha vida: infância, adolescência e adulta. Como posso esquecer dos lugares onde nasci, onde namorei, onde peralteei, dos banhos no rio Jatobá, das pescarias com um litro branco de fundo estufado para dentro! Meu rastro está gravado em volta da estação ferroviária, na calçada do Guarani e nas salas do Colégio Estadual Otacílio Mota.

Cada ipueirense tem uma história belíssima para contar! Quem não se lembra de Dona Diana dedilhando numa clave de dó maior, energizando o ambiente nas festas de Nossa Senhora da Conceição, e nas missas dominicais! Quem não se lembra também de Prêta, mulher do “pipoco”, dos dribles desconcertantes de Paiaz, da locução de Casca, do Zeca Bento na calçada do cartório, gritando pelo Tadeu! Ah Ipueiras, de ti nunca me esquecerei! Onde quer que esteja um filho teu, honra te prestará com disposição e orgulho. Teus filhos, netos e bisnetos, que brincam com as letras, sabem conjugar muito bem o verbo enaltecer.

Os que são cultos te dedicam livros, crônicas e poesias. E eu, o menor dos menores, ofereço-te este texto, não no estilo jornalístico e acadêmico dos que constantemente te escrevem, mas com a verdadeira correção gramatical do amor, da gratidão e da humildade. Eu também quero escrever-te poemas nem que sejam de versos monossilábicos. E quando eu os fizer não me envergonharei dos erros de gramática.

Aquele que já viu o sol nascer por traz do morro do Cristo e se aninhar na serra da Ibiapaba, tem nas veias o sangue de uma tribo que, como eu espezinhando a língua de Camões, habituou-se a escrever sobre sua cidade.

Assisti à derrubada das carnaúbas do centro da cidade. Vi Jeremias clamar para elas permanecerem de pé, mas o progresso falou mais alto e o machado impiedosamente venceu. À noite, na Rádio Vale do Jatobá, Jeremias lia uma crônica que dava por encerrada a época dos meninos que cavalgavam num talo de carnaúba. Como ele, eu também cavalguei num alazão, um ginete por todos admirado, com uma calda bem cuidada, ao estilo manga larga.

A cidade cresceu e com ela também, seus filhos. Muitos tiveram de sair em busca de melhores dias, outros ficaram, onde ainda estão até hoje. Mesmo morando distante, o ipueirense volta de vez em quando para participar da festa de Nossa Senhora da Conceição. A banda de música no patamar da igreja e a batida do sino pelo Antônio Jardilino, nas manhãs de domingo, convidando a comunidade para a Santa Missa, dá-nos um aperto no peito e a saudade faz-nos recordar memoráveis momentos, principalmente do primeiro beijo na primeira namorada.

Um homem raquítico, vestido de terno, gravata, chapéu de massa, sapatos pretos, caminha à noite, a passos lentos, na calçada da Praça Padre Angelim de frente à Igreja Matriz. Ele cantarola uma canção que eu não conhecia. Certamente, uma de sucesso de sua época… Dario Catunda, meu mestre de língua portuguesa, não foge à regra, é um exemplo ímpar de cultura e de cidadania. Falar desse homem é preciso conhecê-lo bem, pois se trata de um ser humano do mais alto nível espiritual e humanitário. São coisas desse tipo das quais o povo de Ipueiras tanto se orgulha. Honro-me por ser conterrâneo de Costa Matos, Gerardo Mello Mourão, Frota Neto, Boré, Heládio, Major Sebastião, Tim Mourão e tantos outros.

Eu te amo muito, Ipueiras! Teu sol é mais frio e aconchegante, tua brisa tem cheiro de mato verde, perfume natural da serra da Ibiapaba. Teu povo, como sempre hospitaleiro e cavalheiro, tem o coração cheio de amor e paz para dar. Fica em paz sob a proteção do Cristo Redentor, e dorme tranqüila à margem do Jatobá. Tu serás para sempre, Ipueiras, minha eterna e querida namorada!

TOBY

domingo, junho 11th, 2017


Luiz Alpiano Viana Alpiano

TOBY

Toby é um cão muito querido, vem da linhagem de poodle. Tanto as pessoas adultas quanto as crianças adoram-no.Poodle de origem!

Corre às léguas com medo de fogos de artifício! Debaixo da cama é o lugar preferido para se esconder. Até mesmo da explosão de uma simples bolinha de aniversário, tem medo.

Na época das grandes chuvas, à noite, era um tormento. Quando o relâmpago abria que clareava todo o interior do quarto, ouvia-se, imediatamente o grunhindo delem como que estivesse pedindo socorro.

De pé, com as patinhas dianteiras sobre o colchão, olhava para mim, fungava como quem pedisse pelo amor de Deus que se lhe colocasse num lugar seguro. Não era possível colocar um cão na cama, mas ele insistia como uma criança, daquelas melosas, que quer carinho, chamego e um ossinho para escovar os dentes. Eu não lhe permitiria isso. Seu pedido era rejeitado, até por que, se lhe fizesse uma vez, assim o seria para sempre. Já bastava a convivência que se tem com ele, mimado como um ser humano. As pessoas da casa são muito generosas, pois lhe dão todos os carinhos do mundo.

A cama onde dorme é um travesseiro com a aparência de um pequeno colchão de boneca. De um lado tem água à vontade, e, do outro, rações especiais em abundância. O estranho é que quando pega no sono ronca muito, e, muitas vezes, confunde-se seu ronco com o das pessoas que dormem no mesmo quarto.

Acordamos – quase sempre bem cedinho da manhã. Ele também desperta e já começa sua própria labuta que não é diferente da do dia anterior. Na cozinha, sob nossos olhares, acocora-se, de cara para cima espera que se lhe dê um petisco. Cheio de querer, não come do que a gente come! Logo se percebe que é muito exigente. Se se põe pão, não quer… Se lhe mostro um pedaço de maçã, também não… Acho que comeria pêra! Eu penso… E quando lhe mostro uma prova, simplesmente cheira, dá uns três fungados como se aquela comida estivesse estragada para seu estômago!

No banheiro, lá está, sentando nas patas traseiras, de frente para o aparelho sanitário, olhando-nos com a cara de cachorro desconfiado. Já pensou num cachorro seguindo nossos passos?

– Toby, eu não entendo por que rejeitas a comida dos humanos! Lembra-te que és um animal doméstico, e não, gente! Mas, diante de toda essa história de cão, mudei de opinião! O ser humano, em alguns momentos da vida, perde feio para ti em comportamento e doçura! Parabéns!

Não aprovo também nem um pouco quando desces e urinas os quatro pneus de meu carro. Se não sujares mais os pneus do carro, eu até te recompensarei: Dar-te-ei um pedaço de queijo no café da manhã! Combinado?

Os cães apenas não falam, mas, entendem tudo que a gente conversa, principalmente quando o assunto é sobre eles. O Toby é assim, entende tudo que se fala.

Ah! Eu te prometi uma caixinha de traques. Aquelas pequenas imitações de fogos de artifícios. E me parece que tiveste sorte! Não encontrei. Estou te devendo essa, embora eu saiba que não toleras tiros, explosões de traques, etc! Eu gostaria de te veres correndo assustado, sem um lugar para te esconderes. Morreria, eu, de rir!

Tu és medroso demais, Toby! Vê que não és mais um bebê! Dez anos de vida já se passaram, e ainda tens medo de trovão, relâmpagos? É providencial que cresças e amadureças. Não esqueças isso! Cuida-te. Não esperes só pelas sobras dos fartos!

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